terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Fábrica de Discos Rozenblit - 60 Anos do Selo Mocambo




           No dia 18 de dezembro de 1954, os jornais pernambucanos estampavam, orgulhosamente, em suas páginas, a inauguração de uma empresa que seria de vital importância para a cultura local: a Fábrica de Discos Rozenblit: “Está montada na Estrada dos Remédios, ocupando ali uma das maiores áreas, apresenta-se modernamente equipada, com as maquinárias necessárias para uma indústria dessa ordem. Devendo-se considerar que a totalidade do seu maquinismo é o mais novo surgido nos Estados Unidos". A Rozenblit, anunciava uma produção de 400 mil discos de 78 rotações e LP com a etiqueta Mocambo.

*Fábrica de discos Rozenblit, anos 70


O primeiro disco com selo Mocambo veio surgir no carnaval de 1953, ou seja, no ano anterior ao da inauguração da fábrica. Tinha o nº 15.000, matriz nº 500, trazendo na face A o frevo-de-rua Come e dorme, de Nelson Ferreira, e na face B, o frevo-canção Boneca, com letra de Aldemar Paiva e música de José Menezes. Tendo como intérpretes o cantor Claudionor Germano, orquestra e coro sob a direção do próprio Nelson Ferreira, o primeiro disco com o novo selo veio a ser gravado nos estúdios do Rádio Club de Pernambuco, na Avenida Cruz Cabugá, em Santo Amaro, tornando-se no grande sucesso do carnaval daquele ano. “Não tinha este negócio de cada um gravar sua parte. Era todo mundo no estúdio, na mesma hora. Errou começava tudo de novo. Quem me convidou para gravar foi Nelson Ferreira. Naquele tempo eu cantava música romântica. Sei que o disco chegou aqui num dia, no outro já tocava no rádio”, relembra Claudionor Germano, cuja carreira daria uma guinada de 180 graus a partir deste disco. A vida profissional dele esteve, de uma forma ou de outra, ligada a gravadora os irmãos Rozenblit, praticamente até que esta fechou as portas, em 1983, em consequência das repetidas cheias e inundações provocadas pelo Rio Capibaribe.






































*Claudionor Germano, o estreante do selo Mocambo

No primeiro disco despontam, além de Nelson Ferreira responsável pela direção da orquestra e arranjos, os nomes de Aldemar Paiva, que vem depois alcançar sucesso com Saudade, gravado por Alcides Gerardi, e Frevo de Saudade, este parceria com o próprio Nelson Ferreira, e o de José Menezes, já famoso pelas gravações de Freio a óleo (RCA 80075-b/1950) e Baba de moça (Continental 16661-a/1953), gravados respectivamente pelas orquestras de Zacarias e de Severino Araújo. 



*Primeiro disco prensado pela Mocambo (Acervo Particular): 
Lado A:  Come e Dorme (Frêvo) - Nelson Ferreira   /   Lado B: Boneca (Frêvo-Canção) - Claudionor Germano

Claudionor Germano da Hora, estava com seis anos de carreira, quando gravou Boneca. Já passara por um trio vocal, o Ases do Ritmo, E, 1948, já estava em carreira solo, como um dos mais requisitados cantores da época. A maioria dos “rivais” não teve o mesmo sucesso. Entre outros, Almir Távora, Paulo Mendes, Guilherme Neto, J.Rocha, que gravou um dos dois primeiros LPs da Rozenblit (o outro foi da cantora Carmem Déa): “Zé Rozenblit era um idealista. A loja que ele e os irmãos tinham na rua da Aurora, era muito moderna. Tinha cabinas individuais para os fregueses ouvirem os discos. Tinha uma cabina onde as pessoas podiam gravar a voz em acetatos. Foi um incentivador da nossa cultura. A Rozenblit tirou muita gente do anonimato, criou um mercado local”, lembra Claudionor, que no mesmo ano gravou mais pela Copacabana, o frevo-canção de História de pierrô, de Genival Macedo e Hilário Marcelino. Lado B, do 78RPM, que trazia no lado A Folias da madrugada, frevo-de-rua de Toscano Filho, com a Orquestra Paraguary.

*Um dos primeiros selos da Mocambo

Os Rozenblit, família judia de origem romena, eram, antes de tudo, comerciantes. O selo Mocambo (pelo qual a gravadora ficou conhecia no Nordeste)teve o nome escolhido num concurso realizado entre os clientes da Lojas do Bom Gosto (uma na rua da Palma, 320, e outra na rua Da Aurora, 77). Capibaribe foi o segundo nome mais sugerido para o selo. Na época, “mocambo” era uma palavra muito falada em Pernambucano, onde corria uma campanha para erradicar os barracos (mocambos), grande parte localizadas nas margens do rio. A Lojas do Bom Gosto passou a manter uma página inteira no Jornal do Commercio aos domingo, inteiramente dedicada aos títulos que vendia, enfatizando os ainda reduzido catálogo da Mocambo: “E já que falamos na etiqueta Mocambo, convém lembrar  aos bons amigos  do carnaval pernambucano, que quatro frevos serão lançados antes dos dias do frevo or Irmãos Rozenblit & Cia Ltda. Os compositores estão encontrando na marca  de discos pernambucanos, cuja fábrica já entrou em construção, o maior apoio à divulgação de seus êxitos (no JC do domingo, 4 de outubro de 1953).







*Tipos de selos em 78 rpm em ordem cronológica, usados pela Rozenblit desde seu aparecimento. Note que o selo amarelo era destinado à divulgação, e não o uso comercial. (Acervo Particular).

Claudionor Germano virou o cantor preferido da Rozenblit a partir de 1957, quando lançou o frevo-canção Eu quero uma mulher (Fernando Castelão), lado B do frevo-de -rua, Praça do Diário, de Lourival Oliveira. A praxe era sempre o lado A ter um frevo-de.rua. Ainda em 1957, Claudionor Germano ocupa o lado B, com Frevo nº 3 do Recife (Antônio Maria), do disco que traz no lado A, Comendo fogo, de Levino Ferreira, com a Orquestra de Clube da Banda da Policia Militar de Pernambuco: “Em 1959, a Rozenblit quis homenagear Capiba, que completava 25 anos de sucesso como autor de frevos, e fui convidado para gravar um LP com músicas dele. Ele e Nelson Ferreira eram os inimigos cordiais. Então Nelson chegou para mim e disse: ‘Menino você vai gravar minhas músicas também’. Então naquele ano gravei dois LPs: Capiba 25 anos de frevo, e O que eu fiz e você gostou, com frevos de Nelson Ferreira. Até hoje são os discos de frevo mais vendidos em Pernambuco”, diz o cantor.



*Um dos LPs mais vendidos do Claudionor Germano, anos 60

A partir deste dois álbuns, que tiveram uma sequência no ano seguinte, com O que faltou...e você pediu, com composições de Nelson Ferreira, e Carnaval começa com C de Capiba: “Era ainda em dois canais. Errou voltava tudo. Leonardo Dantas (o jornalista e historiador) diz que matei de primeira. Muitos anos depois reouvindo os discos, eu pensei e regravar com a qualidade técnica de hoje. Leonardo, quando comentei com ele, disse que eu nem pensasse numa coisa dessas, era como refazer uma obra de arte”, diz Claudionor Germano, que guarda com o maior zelo, o primeiro e histórico bolachão da Rozenblit.

 

Sob o selo Mocambo foram surgindo em discos 78 rpm os mais importantes sucessos do nosso carnaval, como o frevo Vassourinhas, de Matias da Rocha e Joana Batista, gravado em junho de 1956 pela orquestra de Nelson Ferreira apresentando, pela primeira vez em disco, as variações em sax-alto,  compostas por Felinho (Félix Lins de Albuquerque) em 1941, por ele executadas na segunda parte, em  dezesseis compassos sem interrupção, segundo a matriz nº R.696. Ainda na mesma fábrica veio a ser prensado o disco, Frevo dos Vassourinhas nº 1, com orquestra e coro sob a direção de Clóvis Pereira,  produção autônoma com o  selo “Repertório” nº 9093, matriz R 285, gravado na sua versão cantada no auditório do Rádio Jornal do Commercio.

Mas o grande lançamento da Mocambo para o Carnaval Brasileiro aconteceu com um frevo-de-bloco Evocação em 1957, disco em 78 rpm nº 15142 B, matriz R 791. Foi a grande criação de Nelson Ferreira, a quem coube a direção da orquestra e do coral do Bloco Carnavalesco Batutas de São José. Foi o primeiro grande sucesso produzido no Recife que veio a ser cantado em todo o país, tendo vendido centenas de milhares de cópias em todo o  Brasil, graças à força do rádio e da televisão. Em qualquer festa carnavalesca a marcha tornou-se obrigatória e, mesmo nos dias atuais, é comum encontrar-se grupos de foliões  cantando animadamente em uma só voz: 

Felinto…, Pedro Salgado, 
Guilherme, Fenelon, 
Cadê teus blocos famosos ?! 
Blocos das Flores…, Andaluzas…, 
Pirilampos…, Apôis-Fum…
dos carnavais saudosos ?!..”
Na alta madrugada,
O coro entoava,
do bloco a marcha-regresso,
que era o sucesso
dos tempos ideais
do velho Raul Moraes:
“Adeus, adeus, minha gente,
que já cantamos bastante”…
E o Recife adormecia,
ficava a sonhar
ao som da triste melodia…

*Lourenço Barbosa da Silva (Capiba) (1904-1997) e Nelson Ferreira (1902-1976), Foto: Reprodução da capa do LP "Nova História da Música Popular Brasileira" os maiores compositores de frevo do Brasil

Evocação foi o grande sucesso daquele carnaval de 1957, não só no Rio de Janeiro onde a Mocambo vendia centenas de milhares de cópias, mas em todo o Brasil onde chegava a força do rádio e a televisão já se fazia presente, o que levou o seu autor, Nelson Ferreira, a  sair do Recife a fim de gravar programas especiais no Rio e São Paulo.

Não somente sucessos produzidos no Recife, mas também outros, de compositores cariocas, que vieram a ter o selo Mocambo, prensados na fábrica da Estrada dos Remédios, para depois conquistar o Carnaval Brasileiro, a exemplo de Máscara Negra, marcha-rancho de Zé Kéti e Pereira de Matos, gravada por Dalva de Oliveira para o carnaval de 1967; Ôbá, com a turma do Bafo da Onça, em 1962 (nº 15403-b); Ó Malhador, Dircinha Batista, 1963 (nº 15478 b); Samba do Saci, Bloco do Bafo da Onça, 1963 (nº 15489 b); Último a saber, Dircinha Batista, 1963 (nº 15482 a); Cabeleira do Zezé, Jorge Goulart, 1964 (nº 15544 b); A índia vai ter neném, Dircinha Batista, 1964 (nº 15543).

 Também em 1959 a Rozenblit lançou Velhos Carnavais do Recife (LP 40 178), com orquestra e coro sob a direção de Nelson Ferreira. No ano seguinte, no rastro do sucesso dos dois primeiros, foram lançados Carnaval começa com C, de Capiba, e O que faltou e você pediu, de Nelson Ferreira, também gravados ao vivo nos estúdios da Rozenblit por Claudionor Germano e orquestra sob a direção do próprio Nelson Ferreira.

Em 1973,  foram relançados com nova apresentação três LPs de Capiba:  25 anos de frevo( LP 60044); Carnaval começa com C (LP 60106) e Frevo alegria da gente (LP 60060). De   Nelson Ferreira vieram a ser lançados : Meio século de frevo-canção ( LP 60042); Meio século de frevo-de-rua (LP 60041); Meio século de frevo-de-bloco (LP 60040); Meio século de valsas (LP 60043), permanecendo em catálogo uma série de antologias do carnaval pernambucano, como os cinco volumes do Baile da Saudade, com Claudionor Germano e orquestra de Nelson Ferreira (LP 90005 e LP 90007) e Expedito Baracho e orquestra de Clóvis Pereira ( LP 90013 e LP 90016); Carnavalença – Carnaval dos Irmãos Valença, gravado por Expedito Baracho e orquestra de Nelson Ferreira (LP  90010) ; O Frevo Vivo de Levino Ferreira, gravado pela orquestra de José Menezes  (LP 90008); Olinda Carnaval I e II, em  1979 e 1982 ( LP 20.000 e LP 20018); Grandes Frevos de Bloco ( LP 60030); Sua Exa. o frevo de rua, gravado pela Banda Municipal do Recife (LP 60059); Viva o Frevo, antes lançado com o título Frevo na gafieira (LP 40076/1959), tendo Martins do Pandeiro como intérprete, com lançamentos consecutivos em 1973 e 1979;  João Santiago e os 50 anos do Bloco Batutas de São José, com orquestra e coro sob a direção do próprio João Santiago dos Reis em 1983 (LP 90021), Carnaval do Nordeste volumes I e II , gravados respectivamente pelas orquestras de Guedes Peixoto e Ademir Araújo, sob o patrocínio da Sudene (LP 90018 e LP 20021); Capiba – 86 anos, com Claudionor Germano e orquestra de Clóvis Pereira em 1990 (LP 804083).
Alguns desses lançamentos foram transformados, pela Polidisc em fitas cassetes  e, mais recentemente, em  compact-laser (1994), continuando o Capiba – 25 anos de frevo como o campeão de vendas ainda em nossos dias.
*José Rozenblit, um dos irmãos fundadores da Mocambo

Com o aparecimento de uma fábrica de discos no Recife, as gravadoras do Sul, RCA Victor, Copacabana, Odeon, Colúmbia, Philips, entre outras, continuaram com os lançamentos das músicas inéditas feitas para o carnaval do Recife, em 78 rotações por minuto e long-plays, até 1982, quando o interesse ficou restrito à reedição de antigos sucessos do carnaval brasileiro e aos sambas-enredo da Liga de Escolas de Samba do Rio de Janeiro, contribuindo assim para o quase desaparecimento da marchinha carioca nos festejos carnavalescos. 
Dentre outros lançamentos discográficos dos anos cinqüenta, vale registrar o aparecimento do 78 R.P.M. com o maior sucesso carnavalesco de Luiz Bandeira, É de fazer chorar, gravado por Carmélia Alves, juntamente com outro sucesso de Capiba, Nem que chova canivete, lançado pela Copacabana no carnaval de 1957 sob o nº 5699, matriz 1725.
No âmbitos dos long-plays, destaque especial para Carnaval com os Irmãos Valença, Colúmbia nº 40010, matriz XMB 394; Antologia do Frevo, com orquestra de José Menezes e coro de Joab, Philips nº 6349.314, matriz 6349.314, produzido por Toinho Alves (Quinteto Violado) em 1976 com sucessivas regravações; Baile da Saudade, com orquestra de José Menezes e coro, Bandeirantes nº BR 73000, em 1980; Frevança – II Encontro Nacional do Frevo e do Maracatu, gravado ao vivo no Teatro do Parque (Recife) em 19 de setembro de 1980, lançado pela RGE nº 306.3134; os dois primeiros discos da série O Bom do Carnaval, com o cantor Claudionor Germano, pela RCA nº 1070317 e nº 1070411, em 1980 e 1982.
Frevos inéditos, em faixas independentes, no entanto,  continuaram a  figurar nos discos de Alceu Valença, Moraes Moreira, Quinteto Violado, Caetano Veloso, Nando Cordel, Carlos Fernando (Asas da América), Maria Betânia, Geraldo Azevedo, Chico Buarque de Holanda, Gal Costa, Beth Carvalho, Nara Leão, Banda de Pau e Cordas, Conjunto Dominó, dentre outros, não faltando também os frevos instrumentais interpretados por Sivuca, Hermeto Pascoal, Ed Maciel, Dominguinhos, Severino Araújo, Osvaldinho, Renato Borguette, Canhoto da Paraíba e o Conjunto de Cordas Dedilhadas, só para citar esses.

6 comentários:

  1. tenho um disco da mocambo com o nome 8 sucessos (LP 10011) e não tenho encontrado nada sobre ele na internet, a primeira musica do lado A é Casamento aprissiguido e a primeira do lado B é O ritmo Chá - Chá, meu email osmane@outlook.com

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  2. Uma vez consegui de um conhecido pernambucano que morava em São Paulo, um Disco Rozemblit de músicas de carnaval, que continha uma grande seleção de frevos que se tornaram imortais e se eternizaram. Copiei na época em fita cassete, que pela sua fragilidade, depois quebrou e perdi tudo. Não sei se o grande acervo da ROZEMBLIT, foi copiado e onde podemos encontrar ? Não entendo porque a REVIVENDO, que é uma gravadora de outro pernambucano radicado em CORITIBA, não adquire esse acervo tão rico e belo e transforma em CD através de remasterização.

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    1. prezado Joao, todo arquivo da Rozenblit agora se encontra nas maos da Polydisc(gravadora pernambucana nascida nos anos 80) As musicas se encontram em parte nos arquivos digitais, voce pode procurar por Rozenblit Music no Youtube. O proprio Helio Rozenblit(filho do falecido Jose Rozenblit) tem digitalizado e colocado nos canais digitais, pouca coisa tem saido em CD.

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  3. Uma vez consegui de um conhecido pernambucano que morava em São Paulo, um Disco Rozemblit de músicas de carnaval, que continha uma grande seleção de frevos que se tornaram imortais e se eternizaram. Copiei na época em fita cassete, que pela sua fragilidade, depois quebrou e perdi tudo. Não sei se o grande acervo da ROZEMBLIT, foi copiado e onde podemos encontrar ? Não entendo porque a REVIVENDO, que é uma gravadora de outro pernambucano radicado em CORITIBA, não adquire esse acervo tão rico e belo e transforma em CD através de remasterização.

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  4. Fiz muitas capas de LP's para Rozemblit. Onde estão elas?

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